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Além de um cemitério organizado: second brains

08/06/26

16 min de leitura

Além de um cemitério organizado: second brains

Além de um cemitério organizado: second brains

Dominique FerrazDominique Ferraz

Embora a AI tenha sido usada para corrigir erros de português e verificar questões estilísticas e de conteúdo, todas as palavras nesse artigo foram escritas por mim. Se eu não me dar ao trabalho de escrever, você não precisa se dar ao trabalho de ler.

 

Piadas com AI ficam velhas mais rápido do que os modelos mudam, mas esta continua relevante. Um quadrinho com dois frames, no primeiro: “A AI transforma este único tópico em um e-mail longo que eu posso fingir que escrevi”. No outro: “A IA transforma este e-mail longo em um único tópico que eu posso fingir que li”.

LLMs tornaram trivial processar quantidades enormes de informação. Extrair algo útil é, como o ditado popular diz, outros quinhentos. Como todo mundo, eu tenho uma maçaroca de notas, apresentações, artigos salvos, e-mails etc., que compõem uma boa parte da minha vida pessoal e profissional. Da última vez que me mudei, eu achei fichas escritas à mão, coletadas em alguma reunião já esquecida e nunca transcritas.

Não é de hoje que existem técnicas e formatos para lidar com isso. Até o Zettelkasten, literalmente um método de uso de fichários para notas, ressurgiu recentemente. O problema é que essas técnicas resultam em repositórios que são verdadeiros cemitérios, onde a informação fica apenas enterrada. 

Grafos que mostram nada além de lápides. E destilação, convenhamos, não é uma competência humana comum. Essa atenção ao detalhe e essa força bruta são justamente o que as LLMs trazem para o processo.

Modelos mais recentes também se tornaram melhores em teorizar, discordar e notar discrepâncias e padrões. Sem isso, você acaba com um repositório que é simplesmente uma echo chamber, com um loop semântico embutido.

Depois de alguns meses rodando o meu second brain e entendendo suas nuances e problemas, este artigo traz algumas considerações para quem quiser experimentar esse formato.

Não há aqui nenhuma performance no teatro da AI que envolva menções como superfícies de controle, enxames de agentes e outras ideias similares. Não tem nem um OpenClaw sequer. Você pode adicionar isso depois — ou não. Na maioria dos casos, um simples reconhecimento de padrões inesperados já traz bastante valor.

 

Não há também nenhum stack específico. Adapte conforme o necessário. A maioria das harnesses providas pelos modelos possuem projetos, como é o caso do Claude e OpenAI/Codex. 

Crie um projeto novo para esses prompts para evitar que outros chats acabem acidentalmente poluindo o seu second brain.

Um crítico, um provocador

Para começar, você precisa de 4 peças básicas:

  1. O repositório em si. Você pode usar Obsidian, Notion, Apple Notes ou simplesmente uma pasta no seu Dropbox ou Drive. Desde que seja algo acessível pelo seu modelo, isso já é suficiente. Desnecessário dizer: faça backups regulares.
  2. Um pipeline de entrada. Uma pasta chamada “inbox/” ou “entrada/” onde tudo aterrissa: artigos, transcrições de reuniões, ideias movidas a cafeína às 3 da manhã, screenshots, PDFs, conversas do WhatsApp… 

Você pode começar com um simples prompt no seu agente:

“Crie uma automação que processe o diretório de entrada, chamado inbox/, e destile cada item encontrado em um local canônico. Identifique automaticamente o conteúdo e coloque em pastas chamadas conceitos/, opiniões-do-mercado/, reuniões/, clientes/ e assim por diante. Se os diretórios não existirem, você pode criá-los. Se encontrar um item que não saiba classificar, me pergunte até que você tenha material suficiente para fazer isso sozinho. Em cada pasta, escreva um arquivo README com o tipo de conteúdo e como ele é processado. Tudo na pasta deve ser processado e, no final do processamento, escreva um briefing no diretório inbox/briefing contendo um resumo da execução. Crie uma automação para isso rodando a cada [x] horas e sempre que um novo tipo de material for incorporado, atualize a automação e os diretórios.”

Você pode incluir no prompt também informações suas e deixar em um diretório específico. Adapte como quiser. O importante é verificar que a automação foi criada (seu agente lhe dirá como verificar isso e, se por algum acaso não disser, não hesite em perguntá-lo até que esteja tudo certo).

  1. Um crítico diário. Esse é o passo em que o valor começa a ser extraído do seu repositório. Um novo prompt:

“Uma vez por dia, processe o repositório, considerando todo o conteúdo do dia, e encontre três conexões, um padrão consistente e uma pergunta que eu deva responder. Também crie uma automação para isso. Escreva os resultados em um briefing diário no diretório inbox/briefings/. Esse resultado não deve ser meramente texto corrido, mas ser legível e estruturado. Junto a isso, crie uma visualização em HTML para que eu possa ler mais facilmente no meu navegador.”

A frequência pode ser ajustada, mas, na minha opinião, uma vez por dia é mais do que suficiente para evitar tanto o excesso de informações quanto a diminuição do valor dos elos entre os conteúdos. A não ser que você seja uma dessas pessoas que termina cada hora com uma centena de novas entradas. Nesse caso, ajuste a automação até entender o que funciona melhor.

  1. Um provocador semanal. No domingo, pronto para o seu início de semana, o agente olha para tudo o que foi gerado nos últimos sete dias. O prompt:

“Uma vez por semana, aos domingos, processe todas as notas que você encontrou e escreva quatro seções: uma tese emergente a partir de tudo o que entrou nesses sete dias; contradições entre os diversos materiais; lacunas de conhecimento que precisam ser preenchidas; e uma ação que me ajude a alterar e amplificar o caminho percorrido até agora. Crie uma automação para isso também.”

Não tem mágica aqui. Em alguns dias e semanas, tanto o briefing crítico quanto o provocador vão produzir conexões genuínas, ações e ideias que alterarão a forma como você vê o conteúdo. Em outros, vão simplesmente papaguear aquilo que você já sabe. É o preço de como a tecnologia existe hoje. Mas dá para fazer algumas coisas para reduzir esse erro.

Três princípios fundamentais

  1. O README é autoritativo. Cada diretório no repositório tem um README.md explicando o que existe ali e como ele deve ser usado. Serve tanto como documentação para humanos, caso você esqueça ou queira compartilhar, quanto como guia para o seu agente.

Como cada agente no mercado tem sua própria forma de operar no que diz respeito a instruções globais, ainda é necessária uma instrução geral para encontrar esses arquivos. O Claude usa CLAUDE.md, enquanto o ChatGPT e o Codex usam AGENTS.md, e por aí vai. O mais fácil é simplesmente pedir:

“Crie um arquivo no seu formato (CLAUDE.md, AGENTS.md ou outro) que será lido a cada execução realizada neste diretório e que contenha regras básicas. A primeira delas é que todo diretório possui um README.md, e ele deve ser lido sempre que o diretório for acessado de alguma forma, tanto para escrita quanto para leitura.”

Lembre-se de que agentes são sistemas não determinísticos. Ocasionalmente, eles vão esquecer e ignorar um desses arquivos. A geração de conteúdo não pressupõe a ausência de autonomia humana. Mas esses arquivos funcionam como guias para que o seu second brain seja útil, e não simplesmente o cemitério de notas descrito anteriormente.

  1. O output não pode ser o input. Esse é o princípio mais fácil de descobrir do jeito difícil. A primeira iteração do meu briefing diário ficou bonita. A segunda foi meio que uma repetição da primeira. A terceira voltou à primeira. Demorou uma semana para eu perceber que o agente tinha construído um loop fechado em cima da própria escrita e estava produzindo novos “insights” ao reformular os de ontem.

Uma regra que deve ser colocada como parte de todas as automações:

O diretório briefing/ é write-only. O briefing diário nunca lê de briefing/. A revisão semanal nunca lê de briefing/. Somente o material bruto deve ser considerado: o que entrou na inbox naquela semana e o que mudou nos demais diretórios. Se eu quero continuidade entre semanas, releio deliberadamente um briefing mais antigo e específico. Não use esse diretório como parte de nenhuma varredura automática.

  1. Markdown para o conteúdo original, HTML para visualizações humanas. Essa é uma regra que ainda estou considerando. O Markdown acabou se transformando em uma espécie de contrato sobre como agentes e modelos transacionam dados. 

Por outro lado, mesmo com ferramentas como o Obsidian para leitura e edição, acho o formato um tanto inadequado para esse uso específico. No momento, então, estou combinando abordagens. Todo prompt que solicita uma saída inclui:

“Use Markdown como formato canônico para processamento mas, para visualizações e leituras, gere um HTML a partir dele. Mantenha os dois sincronizados sempre que as tarefas ou automações aplicáveis rodarem.”

Isso duplica alguns conteúdos, mas permite que eu use o repositório como uma wiki e também consiga construir visualizações ricas, como gráficos, ilustrações vetoriais e dashboards, de uma forma mais orgânica.

Eu não me chamo Tom: alucinações virais

Se você ainda está comigo, provavelmente concorda que tudo o que viu até agora parece, nas palavras de Arthur C. Clarke, “indistinguível de mágica”. Mas toda mágica tem seu preço.

LLMs são máquinas estocásticas. Produzem alucinações e são suscetíveis a drift semântico, mesmo em situações corriqueiras.

Um exemplo clássico foi quando o meu second brain decidiu que meu apelido era Tom. Por alguma cadeia indireta entre Dominique, Dom e Tom — impossível de encontrar diretamente nos documentos — ele começou a usar isso como meu apelido. Erros assim se tornam virais. Um comentário sobre o lançamento de um produto chamado Crys, dizendo “Crys está ON”, fez com que o repositório renomeasse o produto para Crys ON. Quando percebi, 63 documentos já usavam a nova nomenclatura, incluindo propostas para clientes em andamento.

Outro problema é o envelhecimento dos arquivos e o constante aumento do contexto. Em algum momento, torna-se impossível, pelo menos com os modelos atuais, que cada processamento leve em conta todas as relações e todos os arquivos. Isso aparece principalmente nas automações e nos pedidos de processamento mais gerais.

Por isso, tenho duas rotinas que rodam ao lado da entrada, do crítico e do provocador.

Manutenção: pegando o agente no pulo. LLMs são notoriamente treinadas para preencher vazios. Se algo não está explícito, uma resposta não é encontrada ou alguma coisa não se encaixa, o autocomplete inerente aos modelos preenche esse vácuo com alguma alternativa plausível. Por conta disso, sempre que uma resposta gera um erro ou alguma inconsistência, eu coloco o problema em um arquivo de correções. Uma outra automação, executada uma vez por semana, percorre todo o repositório corrigindo esses erros.

No caso do apelido incorreto mencionado acima, um simples “registre isso no arquivo de pendências de manutenção semanal”, combinado com uma automação que executa “leia o arquivo de pendências encontradas semanalmente, uma por uma, e corrija todas as instâncias desse erro no repositório”, já resolve grande parte do problema. Com o tempo, fui criando regras de resiliência e classificadores automáticos, mas esse é o ponto de partida.

Curadoria: quando um item aluga um triplex no repositório. Uma vez por semana, outra automação executa auditorias proativas. Arquivos que cresceram demais são sinalizados para compactação. Briefings e logs antigos são compactados e arquivados (e as automações foram instruídas a ignorá-los no caso do crítico e do provocador). O material não desaparece, mas deixa de ter tanto impacto no dia a dia do repositório, tornando a execução mais rápida, mais concisa e mais realista.

E, sempre que preciso usar material antigo, é fácil executar um prompt separado para isso.

Três escalas

A arquitetura que descrevi não é a única forma possível. As três escalas abaixo mantêm os mesmos princípios, mas abrem mão de elementos diferentes.

Escala um: repositório unificado mais destilação. Uma única pasta inbox/, alguns destinos canônicos para destilação e uma pasta notes/ para o restante. Não há segmentação por projeto ou função. O crítico diário continua funcionando; o provocador semanal também. É uma ótima escala para quem está começando e, para algumas pessoas, é tudo o que é necessário.

Escala dois: repositório segmentado em projetos, com tarefas. Uma pasta para cada projeto em andamento e, dentro de cada uma, o material destilado, as teses que vão tomando forma (o que você acredita sobre aquele projeto, por exemplo) e as tarefas ativas. A inbox/ continua sendo a porta de entrada única, mas o roteamento já leva em conta os destinos de cada projeto.

Você pode ter um crítico semanal para cada projeto e outro para o repositório como um todo, ou simplesmente manter apenas um. O mesmo vale para o provocador. É uma boa escala para quem quer organizar uma única função ou cargo junto com os projetos associados.

Escala três: repositórios para uma função inteira. Clientes, prospectos, propostas, ofertas, projetos, pessoas, reuniões, briefings, conhecimento, tarefas internas e de clientes — tudo organizado pelos diferentes escopos da sua vida, sejam eles trabalho, hobbies, projetos paralelos ou outros.

É a escala que estou usando hoje, e precisei refinar as automações à medida que construía esses repositórios. Funciona como uma espécie de monorepo de conhecimento e tem seus próprios problemas. Em alguns momentos, há vazamento entre escopos por causa de alucinações e erros. Ainda estou avaliando se é mais simples duplicar tudo e executar automações separadas.

Essas questões se tornam mais prementes quando governança — seja de segurança, isolamento ou custo — passa a ser necessária.

O que custa

Não vou mentir: não é trivial. No momento, para a escala três, eu uso o maior plano disponível para o meu agente, e os repositórios consomem uma quantidade substancial das allowances. É algo valioso e que se paga, mas deve ser considerado na hora de escolher o tamanho do plano.

O teste final

O teste para saber se o seu second brain funciona é relativamente simples: no fim de uma semana de trabalho, ele lhe disse alguma coisa que você ainda não sabia?

Se ele apenas organizou o que você capturou, então não passa de um repositório. Se ele destilou o conteúdo, mas não criou nenhuma tese minimamente instigante e digna de exploração, então também não passa de um repositório.

Não vou lhe dizer qual é a sua versão disso. A minha ainda é um processo de tentativa e erro. Cada nova atualização de um modelo ou ferramenta que aprendo a usar produz um certo efeito meta sobre o conjunto. Há dias em que simplesmente jogo coisas na inbox e só volto a olhar no dia seguinte. Mas, na maioria das vezes, o que emerge das conexões entre projetos, conversas com clientes e colegas, artigos e tutoriais, e-mails, threads do Slack e até mesmo encíclicas papais vale os tokens gastos.

Se você também já ouviu o termo harness e se perguntou o que ele significa, tudo o que foi descrito aqui é uma harness para um second brain. É a forma como o conteúdo é delimitado e processado, com sinais de entrada e saída, para que o máximo de utilidade seja extraído. Como você percebeu, isso falha às vezes. É algo inerente ao ferramental e, em certa medida, inevitável.

Com evals e uma outra LLM atuando como juíza, seria possível reduzir os erros, mas com aumento de custo. Esse, porém, é um tópico para outra hora.

Ah, a próxima revisão semanal é na segunda-feira. Esse é o combinado. Não que o agente deixe de esquecer o que precisa fazer de vez em quando.

Apêndice: e daqui em diante?

O second brain roda na sua máquina local, o que é uma limitação inicial. Além disso, ele só se baseia nas notas às quais tem acesso. Algumas evoluções são possíveis.

Integrações: uma forma muito simples de enriquecer o repositório é conectá-lo ao Google Mail, Google Drive, Slack, Microsoft Teams ou equivalentes. Basta adicionar os MCPs que o seu modelo fornecer (no caso do Claude, eles são chamados de Connectors; no caso do OpenAI/Codex, de Plugins; e assim por diante) e incluir, no prompt de processamento da inbox/, uma instrução simples:

“Também processe todos os e-mails, mensagens do Slack e documentos compartilhados no Drive que sejam endereçados a mim ou que contenham atribuições para mim.”

É um começo simples.

Usando fora de casa ou do escritório: essa é uma parte um pouco mais complicada. No começo do meu repositório, eu usei o próprio Claude Code para criar uma integração rápida com o meu WhatsApp. Essencialmente, eu tinha um pequeno programa rodando no meu computador que monitorava um canal específico do WhatsApp para o qual eu enviava perguntas e novos itens para a inbox.

Hoje, já tenho uma integração completa com o OpenClaw, e o próprio repositório não está mais no Dropbox, mas sim no GitHub. É uma possibilidade mais complexa e que foge ao escopo deste artigo, mas pretendo revisitá-la no futuro.

Enquanto isso, existem bons tutoriais que podem ser encontrados sobre o tema.

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